Anos no Deserto e o Futuro de Acupuntura
Artigo do Dr. João Bosco Guerreiro da Silva
Diretor de Divulgação da Comissão Executiva Provisória do CMA-SP

A quantidade de anos no deserto depende apenas de nós. Vamos também demorar quarenta anos?

A União de todos os nós é necessária e obrigatória, pelo desenvolvimento da nossa Especialidade!

Há muito tempo escutei de um amigo uma estória que me faz lembrar esses tempos que vivemos hoje. A estória é apócrifa, seguramente; como são boa parte das boas estórias. De fato, nem estória é. É interpretação da História ou da Mitologia, depende de como encararmos. Não tem importância, na Acupuntura estamos acostumados a misturar História e Mitologia. Talvez aquilo que vou recontar nem seja verdade, mas como dizem os italianos: se non è vero, è ben trovato .

Dizia então, esse amigo, que Moisés, ao liderar o povo judeu, da escravidão do Egito para a Terra Prometida, escapou do faraó abrindo o Mar Vermelho - até aí todo mundo sabe. Chegando ao Sinai, aquele povo tinha apenas uns 200 km até chegar a Israel, o que daria, em uma média de 20 km por dia, uns 10 dias de viagem.

Eis que a Bíblia nos conta que levaram 40 anos até lá chegar! Acontece, dizia esse meu amigo, com ares de filósofo, que Moisés percebeu que o povo tinha ficado muito tempo no cativeiro. Trazia tatuado em si a humilhação, a escravidão, o medo, a desconfiança, e o que é pior, a idolatria. Era necessário então peregrinar naquele limbo, recriando uma nova mentalidade, livre e soberana, afastada das velhas convicções para povoar a nova terra. Gerações inteiras deveriam nascer (e morrer) dentro de uma nova postura, para construir uma nova e purificada nação. Quarenta anos então foram gastos!

Sempre me lembro dessa estória quando me vejo em situações difíceis de mudar. Momentos onde parece que antigas estruturas e pensamentos impedem que o novo surja. Sempre penso: “É o tempo dos quarenta anos no deserto!”

A acupuntura atravessou o Mar Vermelho. Do lado de lá, encontraremos a dignidade da acupuntura médica. Seremos mais bem remunerados pelos planos de saúde. Unificaremos os currículos das escolas, evoluindo em direção aos novos conhecimentos e respeitando a força da tradição. Reorganizaremos a prova de títulos e a sua bibliografia requerida. Realizaremos congressos unificados, onde a tônica será a ciência e o desenvolvimento do conhecimento. Ganharemos mais espaço nas universidades e ambulatórios públicos.

Entretanto, temos ainda que nos livrar dos maus pensamentos, maus hábitos, medos e desconfianças. Depende de nós a conquista da Terra Prometida. Precisaremos que velhas gerações morram e novas nasçam imbuídas de um novo ideal? Conseguiremos realizar a jornada mais curta, inteiros, unidos, rumo ao desenvolvimento da nossa especialidade?

A quantidade de anos no deserto depende apenas de nós. Vamos também demorar quarenta anos?