Pesquisa comprova que a acupuntura alivia a dor, retarda o climatério em pacientes de câncer de mama e ameniza efeitos colaterais FONTE: CORREIO BRASILIENSE.COM.BR
POR: Paloma Oliveto
PUBLICAÇÃO: 14/06/2010 07:00
Com a espessura de um fio de cabelo, as agulhas de acupuntura representam alívio para quem sofre de dores e inflamações pelo corpo. Pesquisas internacionais recentes, porém, confirmam que a prática tradicional da medicina chinesa, em uso há pelo menos 3 mil anos, também pode ser eficaz no tratamento de outros males, como câncer e infecções. Além de combater os incômodos que acompanham as terapias de doenças crônicas, ela pode ajudar, por exemplo, na recuperação das sequelas provenientes de um acidente vascular cerebral.
Mauro voltou a tocar bateria após tratar uma artrose com a técnica da acupuntura - (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Mauro voltou a tocar bateria após tratar uma artrose com a técnica da acupuntura
Não são apenas os centros de pesquisa internacionais que se debruçam sobre novas indicações da acupuntura. Em Brasília, um estudo-piloto inédito realizado pelo Hospital de Base constatou que o tratamento é um importante aliado na recuperação de pacientes submetidas à cirurgia para retirada da mama. A equipe, agora, investiga os efeitos das agulhas na contenção do climatério, provocado precocemente pelos remédios tomados por mulheres que fizeram mastectomia.
“A acupuntura é baseada na restauração do funcionamento neural do organismo. Ela é expert em fazer a neuromodulação de tudo que envolve o sistema nervoso central e periférico”, explica o médico especialista em acupuntura Fernando Genschow , secretário-geral do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura. Formado por células que se interconectam, o sistema nervoso detecta estímulos internos e externos, desencadeando respostas musculares e glandulares. Por isso, é considerado o integrador do organismo com o meio ambiente.
Genschow, que também é coordenador do Serviço de Acupuntura da Secretaria de Saúde do DF e supervisor da residência médica em acupuntura do Hospital de Base, lembra que, além da dor, a prática milenar responde bem aos problemas relacionados aos neurotransmissores do organismo. Como exemplo, o médico cita hipertensão arterial, transtornos do sono, síndromes do equilíbrio, asma, alergia, refluxo gástrico, síndrome do intestino irritável, prisão de ventre crônica, disfunção erétil, incontinência urinária e até mesmo a infertilidade masculina e feminina.
Nem tudo, porém, pode ser tratado com as agulhas. “O hipertiroidismo tem uma boa resposta porque está relacionado a uma disfunção do sistema imunológico, um dos grandes campos atuais de pesquisa da acupuntura. Já o hipotiroidismo não é neurológico, por isso não se consegue um bom efeito. É perda de tempo”, diz o médico.
Metodologia
No Centro Clínico da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, um novo estudo demonstrou a eficácia da acupuntura para combater a dor e o enrijecimento articulares de pacientes que sofrem de câncer de mama e são tratadas com terapia hormonal. Esses sintomas são efeitos colaterais comuns e afetam cerca de 50% das mulheres que fazem o tratamento à base de inibidores da aromatase, substâncias que bloqueiam a sintetização do estrogênio.
“Como os inibidores de aromatase tornaram-se uma opção muito popular e eficaz para algumas pacientes de câncer de mama, nosso objetivo foi encontrar uma opção não medicamentosa para combater os efeitos colaterais e aumentar a qualidade de vida. Além disso, por causa das dores, muitas pacientes abandonam o tratamento”, disse ao Correio o médico Dawn Hershman, principal autor do estudo e vice-diretor do programa de câncer de mama do Herbert Irving Comprehensive Cancer Center do New York-Presbyterian Hospital.
No estudo, 43 mulheres foram divididas em dois grupos, sendo que uma parte foi submetida à verdadeira acupuntura, enquanto a outra recebeu uma técnica falsa, duas vezes por semana, por seis meses. No segundo caso, o objetivo foi medir o efeito placebo. Todas as que receberam o tratamento real relataram melhorias significativas nas dores e na qualidade de vida. Já as mulheres do grupo de controle não perceberam nenhuma mudança.
Também na área oncológica, um estudo do Northwestern Memorial Hospital e do Robert H. Lurie Comprehensive Cancer Center of Northwestern University, em Chicago, mostrou que a medicina integrativa, incluindo a acupuntura, melhora a qualidade de vida e diminue as dores neuropáticas dos pacientes de câncer. “Nossa intenção é tratar toda a pessoa, não apenas a doença”, explicou ao Correio a médica Melina Ring, diretora do Centro de Medicina Integrativa e Bem-Estar do hospital.
Entre as principais queixas dos pacientes submetidos à quimioterapia e à radioterapia estão tensão muscular, dores, náusea e fadiga. Com as sessões de massagem e acupuntura, eles relataram melhorias em pouco tempo de tratamento. Embora reconheça que as técnicas não curem o câncer, Ring cita os efeitos benéficos: “Estudos mostram que 77% dos pacientes de câncer que recebem tratamento complementar acreditam que a qualidade de vida aumentou, e 73% dizem que se tornaram mais esperançosos”.
Além do tratamento das dores físicas, a acupuntura é estudada para combater problemas de origem psiquiátrica e comportamental, como ansiedade ou compulsão alimentar (veja quadro nesta página). O bancário Mauro Machado, 58 anos, conta que a técnica chinesa o ajudou muito a controlar a ansiedade e, consequentemente, diminuir o apetite.
Além disso, as agulhas foram importantes para regredir uma artrose que o impedia de pegar objetos. “Eu não tinha mais força para segurar nada. Estava ficando muito sério. Com a acupuntura, melhorei tanto que tive ânimo de voltar a estudar bateria”, conta. Para os amigos, ele costuma recomendar as sessões: “É uma técnica que vem dando certo há milênios”, lembra.
» Na China, só para médicos
Devido às complexidades da técnica, o médico Fernando Genschow, secretário-geral do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura, defende a necessidade de um diagnóstico minucioso e preciso por parte do profissional. “Além do diagnóstico, é fundamental fazer o prognóstico. Dependendo do estágio da doença, pode ser necessário fazer apenas uma intervenção, ou várias. A acupuntura pode ser a primeira ou a única escolha”, diz. Um diagnóstico errado, lembra, pode fazer com que uma doença mais grave, como o câncer, deixe de ser tratada, levando o paciente à morte.
Genschow defende que, assim como ocorre na China, a prática seja uma exclusividade médica. “No Ocidente, é tudo muito heterogêneo e bagunçado. Na China, a acupuntura não existe como uma profissão à parte. Para exercê-la, a pessoa tem de se graduar ou em medicina tradicional chinesa, um curso universitário de cinco anos, ou em medicina ocidental, que leva seis anos, e faz mais dois anos de especialização. O mesmo vale para a odontologia e médicos veterinários”, diz.
No Brasil, a acupuntura é reconhecida como especialidade médica desde a década de 1980. Para receber o título, além da graduação em medicina, é preciso fazer uma residência de 5.888 horas. “É uma formação bastante robusta. Só a residência tem mais horas do que alguns cursos de graduação”, diz Genschow. Segundo ele, ao consultar com médicos especializados, o paciente corre menos riscos como, por exemplo, o de perfuração dos órgãos. “Quem não tem um treinamento exaustivo em anatomia pode ainda lesionar nervos”, alerta. |